CAPÍTULO 6

[O DIA SEGUINTE – O LEILÃO]


Carol, muito bem vestida, caminhava pelo salão de festas do discreto hotel, alugado por Thamyres e Thayane para o leilão do pau, ou do garoto com o pau, como queiram.

Já tinha quase terminado a sua primeira taça de champanhe quando reencontrou Tata, que estivera se maquiando no carro. Eram sete e dez da noite. As duas foram conversar a um canto pra não serem notadas.

– Tudo certo?

– Claro. O leilão começa em vinte minutos. Não se esqueça, nenhuma oferta.

– Não sou tão burra. Tudo pra não passar pelo sufoco da semana passada.

– Tudo vai dar certo – sorriu Carol – Sem mais tiros.

– Quer uma revista de palavras cruzadas?

– Por que eu poderia querer?

– Ai, eu acho isso aqui um saco. Não conheço ninguém. Tu que é bem relacionada, me apresenta pra algum gatinho…

Carol riu baixinho.

– Eu tenho a impressão que os gatinhos por aqui são gays, Tata. Ou tarados que produzem filmes pornôs.

– E eu não posso ter alguma esperança? Negócios são negócios.

– Tata, eles vieram atrás de um cara com um pau de trinta e dois centímetros. Negócio tem limite. Eu não teria nenhuma esper…

Carol parou, virou inteira uma taça de champanhe e Tata a olhou com estranheza.

– Que foi?

– Tem um macho aqui sim. Parece que hoje à noite tu vai poder te divertir, vem.

As duas cruzaram o salão onde dezenas de pessoas degustavam o coquetel, à espera do grande momento, e foram parar perto de um homem vestido muito elegantemente, com um terno preto e uma gravata azul de seda, italiana. Quando Carol parou ao seu lado, ele virou a cabeça levemente, dando um sorriso barato de conquistador. Tinha a reconhecido.

– Carol!

– Nuno!

Nuno. Vinte e oito anos, alto, musculoso, bronzeado – logo, 100% de aproveitamento em cantadas. Tinha uma tatuagem no pescoço e outra nas costas, feitas por Carol há muito tempo, que realçavam sua “aparência sexy”. Estudioso e inteligente, passara em três vestibulares ao mesmo tempo, abrira uma empresa, ganhara dinheiro, e só depois voltara à vadiagem adolescente. Desconsiderada sua canalhice e sua pouca consideração para com as mulheres que comia, ele poderia ser eleito o homem perfeito – pelo lado da frente do pano. Carol conhecia seus atributos. Conhecia ele todo, mas não poderia imaginar o que na verdade ele fazia ali naquela noite.

– Não acredito! O que tu faz aqui?

– Vou comprar esse cara aí – respondeu ele, com os olhos brilhando.

Houve um silêncio constrangedor e ele esclareceu:

– Não é pra eu, não – riu ele.

– É pra tua mulher? – falou Tata.

– Eu não tenho mulher. E se tivesse…

– Ela não precisaria – sorriu Carol – Então pra quem é?

– Pro meu sócio. Mas ele também não vai fazer o que vocês tão pensando. Ele quer abrir uma revista feminina. Disse que isso tá dando muito dinheiro hoje em dia. Esse garoto é… perfeito pra promover o produto. Primeira capa, chamariz… essas coisas.

Todos sorriram de leve, e ele perguntou:

– E tu? Quer comprar esse cara por quê?

– Ah, é uma longa história – desconversou Carol. – Mas eu também não vou fazer nada com ele – Aproveitando a pausa, ela apresentou: – Essa é a minha amiga, Tata. Tata, esse é o Nuno. Um velho…

– Conhecido – completou ele.

– Isso. Um velho conhecido meu.

– Muito prazer – disse Tata, e os dois apertaram as mãos; ele dando um beijo no rosto dela e um abraço forte, ela apenas tremendo ao sentir aquele corpo.

– O que tu faz da vida?

– Eu? Eu tenho uma loja.

– De sex–shop – revelou Carol.

Nuno riu, muito entretido.

– Sério? Eu nunca imaginei que…

Ele acenou pra alguém, e disse:

– Com licença, eu já volto. E se eu não voltar, boa sorte no leilão pra vocês.

As duas concordaram com a cabeça, e ele sumiu no salão.

– E então? – disse Tata. – Um velho amigo?

Carol pensou um pouco.

– É um cara legal. Dá três sem tirar.

Tata fez uma careta de assustada, e as duas riram. Ambas molhadas.

Depois de darem mais algumas voltas pelo salão analisando os muitos interessados e interessadas no garoto sem nome mas com algo muito mais importante, as duas escolheram seus lugares, logo em frente ao púlpito. Carol contou: havia entre trinta e cinquenta pessoas no lugar, e várias fileiras de cadeiras encheram. Seriam todas essas pessoas donos de revistas, produtoras de filmes? Dificilmente uma senhora que aparentava 150 anos seria, pensou ela ao ver uma velhinha raquítica passando ao seu lado.

Então a velhinha sentou–se em uma cadeira, tirou do bolso algumas fotos de homens e mulheres nus, e – bem, tudo é possível.

Com pontualidade britânica, quando os relógios marcavam sete e trinta, Thamyres e Thayane apareceram, pedindo pelo microfone que todos se ajeitassem.

Cinco minutos depois, o salão silencioso aguardava o início dos negócios. As gêmeas, que confabulavam nos bastidores, voltaram, e a mais alta tomou a frente. Imediatamente o salão silenciou.

– Boa noite, damas e cavalheiros.

Nenhuma resposta veio da plateia; eram finos demais pra sussurrar um cumprimento de volta.

– O que vai acontecer aqui nesta noite, não se repetirá jamais. Será inesquecível. É uma oportunidade única de negócio para todos. Quem é inteligente conhece o valor da peça que será apresentada a seguir. E quem for criativo, vai fazê-la valer muitas vezes mais. Como nós estamos cientes de que tempo é dinheiro pra todos vocês, e que há muitos interessados na maior descoberta do cinema erótico nacional em 20 anos, vamos, sem mais delongas, começar um leilão. Todos receberam uma placa única e intransferível, e sabem o que fazer. Bons negócios a todos.

Ela retirou-se e foi aplaudida, sem muito entusiasmo. Trocando um olhar significativo, a outra gêmea aproximou-se do microfone e disse:

– Vamos dar início. Senhoras e senhores, sem fotos por favor. Que entre o nosso garoto bem-aventurado. Quem tiver o privilégio de possui-lo, dar-lhe-á o nome artístico que desejar. Esta noite, resolvê-mos chamá-lo de… Ícaro!

Sob uma ovação estrondosa, entrou um garoto vestido com uma grande capa preta, e usando uma máscara de Guy Fawkes.

– Todos entenderão que ele está mascarado para proteger sua privacidade, caso um negócio do seu interesse não seja arranjado hoje. Mas o seu rosto não é o objeto importante esta noite, e pouco será. O objeto importante é…

Uma das T, já posicionada, deu um puxão na grande capa que vestia “Ícaro”, e ele ficou nu em pêlo, com o “objeto” balançante, já em um tamanho acima da média. Calmamente, Ícaro agarrou seu membro, começou a acariciá–lo… e o membro respondeu.

Cochichos vieram de todos os lados da plateia enquanto Ícaro demonstrava seu potencial, e um cochichar percorreu cada fileira. A gêmea ao púlpito pediu calma a todos, e começou a descrição técnica do membro.

– Ícaro é dotado com um instrumento de trinta e dois centímetros de comprimento por dezesseis centímetros de circunferência, bem apresentável e muito, muito eficiente. – sorriu T…, como se falasse de uma máquina de lavar. – Nos testes realizados Ícaro conseguiu mantê–lo ativo por mais de uma hora e meia, sem falhas. Além disso, é um garoto perfeitamente saudável, na flor da idade: vinte e um anos. É uma aquisição imperdível, senhoras e senhores. Todas as provas da minha descrição serão apresentadas ao arrematador, e caso algo difira, o negócio será suspenso sem qualquer ônus às partes, e no momento hábil, um novo encontro como esse será convocado, para que ninguém perca a oportunidade. Muitos de você aqui nos conhecem, e já tiveram a oportunidade de fazer negócios conosco. Sabem da nossa idoneidade. Sabem que os atores que lançamos no mercado nunca decepcionaram a ninguém. Damas e cavalheiros, o lance inicial para ter Ícaro à sua disposição e serviço, não incidindo qualquer imposto sobre esta transação, é de cem mil dólares. Repito, cem mil dólares. Eu tenho mais?

Nesse momento, Tata, sentada ao lado de Carol, cutucou a outra.

– Carol… eu posso ir no banheiro? Eu preciso muito ir no banheiro. – A expressão dela denotava que precisava mesmo.

– Tudo bem, vai. Mas volta logo.

– Tu sabe onde é?

– Entrando aquele corredor, lá atrás – sussurrou Carol.

Tata concordou com a cabeça, e sem chamar qualquer atenção – todos os olhos na plateia, foi saindo.

Quando passava pelo meio de uma fileira semivazia, cruzou por um homem que lhe causou um calafrio, e trocou um olhar mudo com ele.

Este mesmo homem, percorrendo o salão, mexeu no celular, dando um toque pra alguém, e sentou-se bem atrás de todos, com sua placa em mãos. Carol virou-se pra trás discretamente, e piscou o olho para ele, sorrindo.

Era o homem que se apresentara como Ângelo para Júnior, e que levara um tiro sete dias antes.

Instantes depois, Tata entra no banheiro feminino, observa seus cabelos loiros (tingidos) no espelho, conta três portas e entra em um dos sanitários. O homem escondido ali dentro a abraça; os dois trocam um beijo de língua bem molhado.

Era Nuno.

– Eu quero fazer…

– Espera só mais um pouco, a gente faz no meu carro. – dizia ele baixinho, mordendo de leve a orelha dela.

– Vai esperar mais? – disse ela.

– Não – disse ele, observando o relógio. – Vem.

Cautelosamente, os dois saíram do banheiro, e abraçados, sem que ninguém sequer os visse de relance, tomaram caminho em direção à saída de emergência.

Na tribuna, uma gêmea altamente agitada apontava pra todos os lados do salão. As placas não paravam de subir.

– Duzentos e cinquenta mil; eu tenho duzentos e sessenta? Duzentos e sessenta mil; quem dá duzentos e setenta? A dama de óculos com o casaco de peles disse duzentos e oitenta??

– Sabe – disse Tata, saindo com Nuno – Essa vai ser mesmo uma noite inesquecível.

Os dois riram. Do palco, ouviu–se o grito da gêmea que suava de emoção:

– Trezentos mil dólares!!

Nesse instante, uma explosão acontece por debaixo do palco, abalando o salão, jogando as gêmeas de quatro e causando total confusão.
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